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TagsArchetype Greek Mythology Psychology & Cognitive Science
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Na história russa, porém, algo mais acontece: Ivan comete um erro muito

grande ao queimar a pele de sua esposa-rã. Este é um tema mais difundido,

encontrado em contextos completamente diferentes e em muitos outros

contos de fada. A anima aparece primeiramente em pele de animal, seja como

peixe, seja como sereia, ou, mais frequentemente, como um passarinho, e só

depois é que ela se transforma num ser humano. Geralmente o seu amado

guarda sua antiga pele de animal ou de pássaro numa gaveta. A mulher tem

filhos e tudo parece estar muito bem, quando acontece de o marido insultar

sua mulher, chamando-a de gansa ou sereia, ou de qualquer outra coisa que

ela havia sido anteriormente. Ela, então, apanha sua antiga vestimenta e

desaparece. E agora ele tem que procurá-la por um bom tempo até encontrá-la

ou, em algumas versões, ela desaparece e ele morre. Em tais histórias, pode-

se até achar que seria preferível o homem ter queimado a antiga pele da

esposa, pois assim ela não fugiria. Mas aqui é exatamente o oposto que ocorre.

Ivan queima a pele, o que poderia parecer bom, mas não é. Em outros contos

de fada, como, por exemplo, no conto de Grimm chamado "Hans, o ouriço", a

pele do animal é queimada. Um príncipe foi castigado e tornou-se um ouriço e

os servos da noiva queimam a pele do ouriço libertando o príncipe, que dá

graças por ter sido redimido. Então, queimar a pele do animal não é

necessariamente destrutivo, dependendo do contexto.

Em nossa história não se compreende por que o fato de queimar a pele

da esposa faz com que ela desapareça voando. Pode-se imaginar que seu pai a

castigou e que ela deve permanecer dentro da noite e da obscuridade pagando

os seus pecados e, pelo fato de ter sido interrompido o processo, a sua punição

se torna ainda mais severa. Mas isso são conjecturas; a história não dá maiores

explicações. Os contos de fada onde a pele queimada de animal constitui-se

em algo construtivo, fazem parte dos inúmeros rituais de transformação pelo

fogo. Na maioria dos textos mitológicos, o fogo tem a qualidade de purificação

e de transformação, sendo por isso usado em muitos rituais religiosos. Na

alquimia o fogo é usado (como aparece literalmente em alguns textos) para

"queimar tudo o que é supérfluo", de tal modo que somente o núcleo

indestrutível permaneça. Consequentemente, os alquimistas começam por

calcinar a maior parte das substâncias que utilizam, destruindo o que precisa

ser destruído. Aquilo que resistiu ao fogo, o resíduo sólido que sobrevive à

calcinação, tem o símbolo de imortalidade. O fogo é, portanto, o grande agente

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de transformação. Em certos textos gnósticos, o fogo é também chamado de

"O Grande Juiz", porque ele julga, por assim dizer, determinando o que tem

valor para sobreviver e o que deve ser destruído. Tudo isso se aplica, também,

ao significado psicológico, pois por fogo entende-se o calor das reações

emocionais e dos afetos. Sem o fogo da emoção nenhum desenvolvimento

ocorre e nenhuma conscientização maior pode ser alcançada. E por isso que

Deus diz: "Oxalá fosses frio ou quente, mas porque és morno e não és quente

nem frio, estou para te vomitar da minha boca" (Apocalipse 3,16). Se na

análise terapêutica aparecer alguém que é indiferente a ela, se for

desapaixonado, se não sofrer, se não houver o fogo do desespero, nem ira,

nem conflito, nem fúria, nem aborrecimento, nem nada dessa espécie, pode-se

estar certo de que quase nada será constelado e que será uma análise chocha,

insípida, um eterno "bla-bla-bla". Então o fogo, ainda que seja uma forma

destrutiva de fogo (conflito, ódio, ciúmes, ou qualquer outra emoção), acelera

o processo de amadurecimento, sendo realmente um "juiz" que esclarece as

coisas. As pessoas que têm fogo entram em problemas, mas ao menos elas

tentam alguma coisa, mesmo que caiam em desespero. Quanto mais fogo,

mais existem os perigos dos efeitos destrutivos, de explosões emocionais e de

toda espécie de erros e diabruras, mas, ao mesmo tempo, é isso que mantém

o processo caminhando. Se o fogo for extinto, está tudo perdido. Esta é a razão

pela qual os alquimistas sempre dizem que não se deve deixar apagar o fogo.

O trabalhador preguiçoso, que deixa seu fogo apagar, está perdido: esse é o

tipo de pessoa que somente esbarra no tratamento analítico, mas nunca entra

de cabeça, ou melhor, de coração aberto. Ele não tem fogo e por isso nada

acontece. Então, o fogo é o grande juiz que determina a diferença entre o

corruptível e o incorruptível, entre o que é e o que não é relevante.

Consequentemente, todos os fogos mágicos e de rituais religiosos têm a

qualidade sagrada de transformação. Em vários mitos, entretanto, o fogo é o

grande destruidor. Algumas vezes, o mito revela a destruição do mundo pelo

fogo. Os sonhos nos quais cidades inteiras são queimadas, ou que a nossa

própria casa é destruída pelo fogo indicam, em regra geral, um afeto já

existente que se tornou completamente fora de controle. Sempre que uma

emoção ultrapassa o controle do indivíduo, aparece o fogo destrutivo como

tema. Alguma vez você já se sentiu em tal estado de espírito que fez coisas

horríveis, irremediáveis? Alguma vez você escreveu uma carta e daria tudo

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