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TitleJoel Dor Estruturas e Clinica Psicanalitica
TagsPsychoanalysis Sigmund Freud Causality Jacques Lacan Hysteria
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Page 2

A redação deste texto foi objeto de um
curso proposto aos estudantes do mestrado
de Psicologia da Universidade Federal do
Rio de Janeiro.
Em primeiro lugar, quero sublinhar tratar-se
de uma abordagem psicanalítica organizada
segundo uma perspectiva sintética que achei
poder definir em torno da noção de
"diagnóstico".
Sem dúvida nenhuma, a questão de
diagnóstico remete-nos diretamente à
dimensão de um "embaraço técnico" no
campo do inconsciente, tão logo o clínico
seja confrontado, na urgência que se sabe,
aos meandros da prática.
Trata-se, antes de mais nada, de uma
dificuldade de "balizamento", sabendo que
o termo é usado numa acepção quase que
exclusivamente topográfica. (...) Mesmo se
essas balizas em nada prejulgarem a natureza
da pertinência da prática, nem por isso
deixarão de ser balizas metapsicolósicas que
nos permitem circunscrever certas entidades
nosográficas estáveis, por pouco que esta
perspectiva seja remetida ao contexto
coerente da referência empregada a fundá-la:
o inconsciente. (...)

No que diz respeito a este curso, trata-se,
mais precisamente, de introduzir essa noção
de diagnóstico, numa perspectiva estrutural.
Como tal, essa perspectiva impõe que nos
prolonguemos no descritivo dinâmico e
econômico das principais estruturas
psicopatológicas: estruturas histérica,
obsessiva, perversa. As estruturas psicóticas
foram deliberadamente deixadas de lado, em
razão de sua complexidade, que exigiria um
maior espaço de tempo para este curso.

J.D.

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X. Estrutura histérica e lógica fálica

Como fizemos para com a estrutura perversa, proponho que
tentem cernir os traços estruturais fundamentais da histeria, isto
é, pondo em evidência, na dialética do desejo e à vista do jogo
fálico, o que se pode considerar como "pontos de ancoramento"
das organizações histéricas.

Convém então apontar os pontos de cristalização em que esta
lógica fálica inflete segundo um modo específico e preponderante
que se fixa, no presente caso, em torno da problemática do ter e
do seu correlato não ter.

Por menos que se trate, na histeria, de um fato estrutural, nem
por isso a passagem do ser ao ter deixa de constituir um aconte-
cimento geral da dialética edipiana. Trata-se, portanto, de uma
dimensão que intervém no horizonte de todos os processos de
organização psíquica. O modo estereotipado de se encarregar do
jogo constituído por esta problemática do ter é que será represen-
tativo da estrutura histérica.

Como sabemos, a passagem do ser ao ter é determinada prin-
cipalmente pela intrusão paterna. O pai imaginário aí se manifesta
intervindo especificamente como pai privador e frustrador. Do
mesmo modo, aparece à criança como um pai proibidor? É,
efetivamente, porque o pai é reconhecido pela mãe como aquele
que lhe "faz a lei" (Lacan), que o desejo da mãe se revela à criança
como um desejo inscrito na dimensão do ter. Enquanto o pai
privador arranca a questão do desejo da criança da dimensão do
ser (ser o falo da mãe), este pai conduz inevitavelmente a criança
para o registro da castração.

Esse pressentimento da castração é aquilo através do que a
criança descobre não ser, não só o falo, mas também não o ter, à
exemplo da mãe, que descobre, ao mesmo tempo, desejar a
criança ali mesmo, onde é suposta estar. O pai tem, assim, acesso

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